Por: Amin Alves Murad (CEO na Arm Gestão Consultoria)

Voltaram a circular análises prevendo novos recordes de pedidos de recuperação judicial e falência em 2026, em um ambiente ainda marcado por custo de capital elevado, crédito mais seletivo e muitas incertezas.
No ano passado, já observamos uma queda na eficiência dos resultados desses processos. Mantidas as condições, é razoável supor que mais empresas buscarão a ferramenta e, ainda assim, não conseguirão evitar a falência. Na prática, tem crescido a incidência de desfechos sem preservação efetiva dos negócios, inclusive com convolações em falência ao longo do caminho.
Este ano, a Arm Gestão completa 10 anos. Ao longo desse período, coordenamos dezenas de projetos de reestruturação de empresas e uma série de processos de recuperação judicial e, frequentemente, observamos empresas que entram com o pedido sem o nível de preparo que a própria recuperação judicial exige. Um erro recorrente é tratar a recuperação judicial como um tema essencialmente processual, restrito ao que se passa em juízo. Na prática, o trabalho determinante acontece fora dos autos. Trata-se de um dos processos de gestão mais rigorosos que uma empresa pode enfrentar, com exigências simultâneas nas frentes jurídica, financeira, operacional e de governança, e com necessidade de coordenação e disciplina de execução.
Quando a empresa entra sem a adequada organização, o acionista se depara, já nos primeiros dias, com obstáculos que travam a condução:
- Dados financeiros pouco confiáveis, com divergência entre contábil, gerencial e o que efetivamente ocorre no caixa.
- Ausência de comunicação interna estruturada e de preparo de acionistas e lideranças, o que amplia ruídos e reduz capacidade de execução.
- Soluções superficiais para problemas complexos. Orientações genéricas, tratadas como solução, que não enfrentam a complexidade do caso nem se sustentam no nível de profundidade necessário para decisões.
A preparação para a recuperação judicial é um conjunto de análises e medidas para executar o processo. Envolve informação financeira confiável, projeção de caixa, controles que orientem decisões, governança de crise com ritos claros e uma estratégia de negociação coerente, ancorada em projeções econômicas confiáveis.
O trabalho da consultoria empresarial é organizar todos esses movimentos em um cronograma claro, objetivo e fazer o acompanhamento de cada etapa, desde o entendimento do caso, definição das estratégias, sua implementação e acompanhamento dos resultados, até a aprovação final do plano de recuperação judicial.
Desta forma, o plano aprovado será aquele que, de fato, recupera a empresa e reduz as eventuais perdas de todos os credores.
Sem preparação e sem gestão experiente na matéria, especialmente em ambiente de crise, o projeto tende a fracassar e, nesse contexto, o desfecho frequentemente é a falência.
2026 deve confirmar a tendência de aumento de pedidos de recuperação judicial e a discussão principal não será sobre a quantidade. A pergunta relevante é se a essas empresas estão prontas para executar, desde o primeiro dia, o nível de exigência que a recuperação judicial exige.



